“musica é perfume”

O cheiro de poeira de algum sebo ou aquele plástico inconveniente que embala o cd, a capacidade da imagem tornar a canção algo físico e a estante mais colorida pela diversidade trazendon uma identificação capaz de fazer o colecionador passar horas envolvido alí ouvindo, tocando e olhando. Não fosse o lado emocional da coisa, a identificação proporcionada também pela imagem, os downloads já teriam jogado vinis e cds para escanteio. Independente da facilidade de se baixar qualquer álbum, existe cada vez mais a necessidade de consumir algo além da música, qualquer coisa capaz de acompanhá-la.
A música é a arte completa, sensorial e performática. Por ela, o ser humano é capaz de definir seus interesses e formar grupos para consumo ou produção cultural, que está cada vez mais acessível. É possível revisitar outras décadas, desconstruir e reconstruir mesmo dentro de casa, com alta qualidade. Tal facilidade faz com que o mainstream não seja mais a única forma de se chegar ao público. Por isso, a imagem é uma referência forte de aproximação entre produtor e ouvinte.

amor encubado – ou só uma carta

a saudade de você as vezes também me mata um pouquinho. basta alguém lembrar de como você era quando eu já me esqueci. sinto vontade de deixar o relógio de ponta cabeça e aí vem a sua careca lisinha e os fiapinhos de cabelo grisalhos,  as coisas que pedia e dizia pra mim; vem a mão macia de moça com unhas para eu cortar, os óculos de grau com gordurinha do nariz, a sua bexiga solta, revistas pornográficas e todas as outras. a conta na banca de jornal em frente ao banco do brasil e tudo alí era meu. uma mesa de baralho, os milhoes de bilhetes da mega sena que você nunca conferiu e uma buzina tão autêntica que nunca mais ouvi. faz silêncio em mim.
eu não deveria, mas as vezes esqueço e faz tanto tempo. mas as suas cobertinhas ainda existem, das poucas coisas que ainda existem além da vontade de contar de tudo.  as televisões de trinta mil agora são acessíveis e nos já temos, eu tenho um computador como o do jô soares quando ele ainda era do sbt, pequenininho, do jeito que você achava bacana.  comecei a trabalhar também. mas não casei ainda, pai. isso deve demorar um tanto. também to enrolando para formar. você me conhece…
hoje em dia pra ouvir música a gente nem compra mais cd, celular faz tanta coisa que nem tem botão. os seus netos são umas figuras e a tia liana é vizinha. hoje em dia ela está sempre com a minha mãe. porque o tempo vai mudando as coisas de lugar e você de fato, nem faz mais parte, né? mas tem coisa que continua, tem coisa que vai e volta. lembra das minhas pulseiras de tachinhas? a moda voltou. mas você não. e sempre tá tão perto…
e os meninos… bem, eles continuam brigando até pela batata frita!
eu não penso em você o tempo todo mais não… porque aperta como o jeans que eu usava quando a gente dividia espaços. pensar demais em você não cabe em mim e vaza. gotas e sorrisos. mas doer, pai, dói não… meio que endureço para disfarçar e aparece sempre um monte de gente. todos os meus amigos, lembra? já não são mais e vieram outros. da ultima vez que nos vimos eu era tão feinha…
o calçadão de copacabana fica aqui na frente. existe supermercado 24 horas e a minha mãe não acha tudo tão caro não. eu tenho uma casa nova com piscina e ela que me deu. juro por você mortinho atrás da porta. você tinha razão: quando fosse de vez, nós teriamos tudo!  mas você nem sabe de nada. que dó!
a mãe do chico buarque morreu, mas a dona canô taí, vivinha e sendo homenageada pela bethânia em todo show. e ela fez um no evento de moda em que eu trabalhei. e vi, e fui vista, toda perua, pai.
você também nem me viu chegando em casa bêbada, nem sei se veria, mas veria sim. não deu tempo para brigar.  voce ficaria impressionado como eu puxei o jeito da minha mãe.
mas o mundo, pai… ah, boto defeito em tudo como você! voce perdeu, sabia? perdeu um tanto quando a gente inverteu os caminhos.

tantos finais e só um ano.

faz quase um ano e ainda é recente toda a memória desde o último verão. é sempre assim quando chega dezembro. é quase lá, quase natal, quase reveillon.

nessa manhã, o sol saiu mais forte. deve ser a proximidade das férias e do tempero de mãe. da praia até o fim do dia, de gargalhadas longas e copos vazios. deve ser saudade amarrada num laço de fita quase froxo porque o final de semana se aproxima.

copacabana se enche de pacotes e sorrisos. tem tambem os presépios pela orla e a vontade grande de não dormir a noite.

é só o primeiro dia do mês doze e eu já me enrolo em listas, simpatias e expectativas. da mudança que fiz e guardei as caixas. das contas que faltam pagar e da passagem que vou comprar agora.

Eu peguei as chaves e resolvi devolver. Bati três vezes, fiz um samba na sua porta. Ninguém atendeu.

Nossas paralelas entortaram na imensidão do só. O tempo virou na esquina e os passos continuaram largos. Enfiei as chaves no bolso e pisei forte nas pocinhas que se formaram de mim. Preciso cumprir as coisas da rotina e abandonar o telefone, o perfume, as memórias. E vou mentalizando as listas e os prazeres. Pra juntar tudo e deixar você de lado.

Achei uma entrada pro filme das cinco e meia. Achei uma chance.

Não faz muito sentido falar de tempo e filosofias. É a rotina! Veja bem: há urgência nessa vida! E Marx, Hegel e tantos outros fazem muito sentido quando sobra tempo. Mas ás vezes, o próprio rumo das coisas cala as dúvidas. É o ritmo do acaso e das coincidências: o obscuro dos laços desamarrados dos amores e dos prédios novos que a cidade traz poluindo e colorindo os dias de ônibus lotado. Não ter as respostas pode até ser bom.

São tantos livros complicados, de nomes do século passado só para explicar a dor no coração, a vontade fora de hora e aquele monte de coisa que é naturalmente humana.

Existir é simples, pesado e agora. E é também uma delícia, um bolo quente sobre a mesa. Sábio mesmo é quem consegue ir pulando fases como em jogos de vídeo game e vive quase por encantamento. Já dizia Hegel: “nada de grande realizou-se no mundo sem paixão”. A falta da paixão é a culpa do arrependimento, é o pai do filho na hora errada. Há o caminho de quem escolhe arriscar ou viver sob medida. E tem também os que amam viver sob medida!

Filosofia é coisa que se constata, meu caro e da uma sensação barata de “eu já sabia” e um segundo depois, não ter resposta de nada. Porquê no final, resta um “e daí?” das mínimas coisas. E ai de quem não questiona um pouco a existência – morre seco. Convenhamos, morrer assim, sem um instante final de brilho no olhar, é a coisa mais sem graça de ter vivido!

brincando de haikai. (haiku pro rafael de todos os céus.)

flor no cabelo

quem brilha em sol quente

não vira vela.

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água na bacia

água de coco verde

no verão fresco.

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bem frio na cama

uma hora,  ela cansada

ele teima em vir.

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vento que chora

tece saudade grande

no travesseiro.

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sombra acalma

refresca e aquece

em qualquer lugar.

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descolorante.

e morria todo dia um pouquinho.

no sol quente, no olhar atravessado da chefe,

na fatura do cartão e na falta dele antes de dormir.

viveu de aparências

deixou o país e voltou

só pra morrer mais

simples assim.