Não faz muito sentido falar de tempo e filosofias. É a rotina! Veja bem: há urgência nessa vida! E Marx, Hegel e tantos outros fazem muito sentido quando sobra tempo. Mas ás vezes, o próprio rumo das coisas cala as dúvidas. É o ritmo do acaso e das coincidências: o obscuro dos laços desamarrados dos amores e dos prédios novos que a cidade traz poluindo e colorindo os dias de ônibus lotado. Não ter as respostas pode até ser bom.

São tantos livros complicados, de nomes do século passado só para explicar a dor no coração, a vontade fora de hora e aquele monte de coisa que é naturalmente humana.

Existir é simples, pesado e agora. E é também uma delícia, um bolo quente sobre a mesa. Sábio mesmo é quem consegue ir pulando fases como em jogos de vídeo game e vive quase por encantamento. Já dizia Hegel: “nada de grande realizou-se no mundo sem paixão”. A falta da paixão é a culpa do arrependimento, é o pai do filho na hora errada. Há o caminho de quem escolhe arriscar ou viver sob medida. E tem também os que amam viver sob medida!

Filosofia é coisa que se constata, meu caro e da uma sensação barata de “eu já sabia” e um segundo depois, não ter resposta de nada. Porquê no final, resta um “e daí?” das mínimas coisas. E ai de quem não questiona um pouco a existência – morre seco. Convenhamos, morrer assim, sem um instante final de brilho no olhar, é a coisa mais sem graça de ter vivido!

brincando de haikai. (haiku pro rafael de todos os céus.)

flor no cabelo

quem brilha em sol quente

não vira vela.

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água na bacia

água de coco verde

no verão fresco.

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bem frio na cama

uma hora,  ela cansada

ele teima em vir.

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vento que chora

tece saudade grande

no travesseiro.

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sombra acalma

refresca e aquece

em qualquer lugar.

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descolorante.

e morria todo dia um pouquinho.

no sol quente, no olhar atravessado da chefe,

na fatura do cartão e na falta dele antes de dormir.

viveu de aparências

deixou o país e voltou

só pra morrer mais

simples assim.

as mãos esfriaram e era experiência. não havia ali sequer uma gota de paranóia. a entropia da divisão.

poderia ser uma porção de coisas, mas era só finalzinho.

é meio e é inteiro

tenho alguns irmãos. para todos os gostos. pessoas completamente distintas e que vivem a vida individual sem culpa. não ligam, não contam uma novidade, não anunciam o carro novo, nem a gravidez da esposa, nem chamam pra ir ao cinema. é assim entre todos e são vários. 4 homens. três pra um lado e um pro outro. e os três também são um pra cada hemisfério.

cresci os vendo por aí. quando menor, em festas da família; mais velha, nos enterros. e a gente vai compartilhando dores agudas da vida raramente. de forma intensa, óbvio.  não há razão nessa vida para discrição. muito menos, para vozes baixas quando o sangue é quase igual. entre eles não existe respeito,  mas se eu piso, é mais bonito.

gosto de todos. desde sempre. mesmo que eu fale mal de longe, sabendo detalhadamente dos defeitos ou sem compartilhar muita coisa…  são dificeis. cada um a seu modo. quase impossíveis. mas eu gosto até disso e talvez eles nem saibam. talvez eles não saibam que por mais que eu não tenha esperado também, meu domingo no sofá poderia ter sido bem melhor num barzinho ao lado de qualquer um deles.

o chato dessa racinha, ne?, a carencia escondida que nem é tão escondida assim. é que não da tempo, é que tem trabalho, é que tem filho, tem relacionamento, horário, tem amigos, viagens… e vai deixando pra lá.

mas aqui é meu, né? e sentir e matar saudades é coisa forte. bem forte!

sergio sampaio sabe de tudo.

Suje os pés na lama
E venha conversar comigo
Comigo
Chore, esqueça o drama
E venha aliviar
O amigo
Vem, não tenha medo
Não tenha medo
Não tenha medo, não
Vem, não tenha medo
Não tenha medo, não
Vem, não tenha medo
A barra está pesada
Vem, não tenha medo
A barra pode aliviar
As pessoas são uns lindos problemas
Eu posso até acreditar
Eu acho tudo isso uma grande piada
Ou então eu não posso achar
Não me espera pra beber seu veneno
E nem pra ver você chorar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe
Eu posso nem chegar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe
Eu posso não voltar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe.

procurando na mudança.

de vez em quando a perfeição está naquela bolsa que você procura para compôr e clarear.  sem aquela bolsa, não dá samba, é fosco e não ta bonito…

mas só de vez em quando!

meu pé de amora.

era um final de semana daqueles que prometem: festa de aniversário de um amigo e tudo. eu tinha só 14 anos e uma vida social em guarapari, litoral do ES. acordei num dia lindo, dormindo na cama dos meus pais, por que tinha muito medo de coisas que “não existem”. levantei, ajudei mamãe com um suco e fui levar para o meu pai, que, segundo ele, tinha ido dormir no meu quarto porque mamãe roncava como um boeing. ele falava esquisito. disse que era só uma dor de cabeça. chamei a senhora de tudo, minha mãe.

meu medo, do que não existia, ficou próximo. eu não sabia se sabia ou se estava interpretando o desespero. tanta novela nessa vida… coloquei uma roupa, com a preocupação de ser a melhor. mamãe não. do jeito que estava, ligou em pânico pra tanta gente;  enquanto eu, sem pressa, me arrumava, sempre assim… fomos para o hospital e em questões de segundos, estávamos na capital, em busca de recursos.

ele perdeu a fala e os movimentos naquele dia por conta de um derrame cerebral. um pé de amora, pedaço de amor que só se via. nunca mais me levaria ao colégio, nunca mais cantaria um samba e nem recitaria poesias. não jogaria baralhos, não discutiria relações e nem visitaria diariamente sua plantação de côcos.

meu pai era um cara bacana, tinha uma cara emburrado, idade de vô e tanta história pra me contar… minha mãe sempre foi legal, mas ele era tão legal que eu nunca tinha parado pra reparar nisso. as coisas tomaram proporções enormes e eu virei gente grande sem sentir. mesmo que isso tenha durado só um ano. foram 5 meses entre UTI, quarto, UTI, vai pra casa, não vai… e eu, naquela cidade ovo, casa de uns e outros, oitava série e recuperação em física. o ano parecia gigante – ou pequeno, não sei. tem horas nessa vida que a gente não entende muito bem o numero de horas do dia. e mesmo assim, a vida de 14 anos ainda existia, de vez em quando.

achei que fosse tudo voltar ao normal e que era a tal “fase”. o ser humano sempre se segura no clichê “vai passar”, irracionalmente ou não. e passa mesmo. a vida é uma sucessão de clichês e nessa divisão de vida e morte, você se depara com uma infinidade deles. todo mundo me ligava enquanto ele estava no hospital, eram tantos abraços e amigos da família aparecendo. mais amigos da minha mãe que dele, que, crítico demais, não fazia questão de muitos. mas sempre fez de mim.

recordo de pouca coisa. uma amnésia expontânea que todo mundo tem quando toma um choque. entre aniversário dele, natal e reveillon, o clima era de ida. a partir daí, o natal ficou fosco. num dia destes, eu saía a noite e com um nó na garganta, eu disse que o amava. uma enfermeira dava uma sopa daquelas que eu tenho certeza que ele não estava vendo a mínima graça e, com uma dificuldade gigante, levantou a mão e pela traqueostomia, com voz robótica disse que que me amava também.

nunca me lembro disso sem encharcar os olhos. nenhum outro homem dirá algo semelhante de forma tão sincera. e eu nunca mais deixei de falar o que sentia. no dia 08 de janeiro de 2003, meu pé de amora secou. e entre o meu egoísmo adolescente e a maturidade que veio do nada, dei o tchau mais confuso de todos. passaram 5 anos, namorei, “emulherei” e virei amiga da minha mãe, mesmo sendo dificílimo conviver com outra mulher, tendo morado dentro dela e sendo uma, vira e mexe, reclamo de ter tido pouco tempo pra aprender mais com ele.

acho que vivo nessa busca e ele tá lá, na areia de copacabana, no samba da vila isabel, na agência do banco do brasil e nas ruas de guarapari. preciso buscá-lo pra por em mim.

um sonho ruim.

abri um leque de lembranças junto a os olhos encharcados neste sábado… unir a falta de horizonte com a perda gigantesca me congelou e degelou em frações de segundo.

salguei-me e gritei. precisava de alguem, de ajuda e de um colo de mãe. ela sempre tão presente e eu sempre querendo fugir. ai, esses quase 20 me levarão a loucura…

boom.

ins piração
inspire ação

ta faltando…

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